Até onde temos o livre arbítrio?

Os gregos antigos acreditavam que o destino de todos é traçado ao nascer. Que independentemente do que façamos, não há como fugir do destino que os deuses decidiram para nós. Portanto a liberdade de escolha seria apenas uma ilusão.

Na verdade, nosso destino é realmente predeterminado, por mecanismos do nosso cérebro e pelas leis fundamentais que regem o tempo e o espaço. É sabido que abaixo do nível de consciência, nosso corpo executa dezenas de funções que controlam nossos atos, deste modo, nos dando muitas vezes a sensação de que estamos no controle, quando na verdade, não estamos. Pegue o exemplo de um jogador, muitas de suas ações, são extremamente automáticas, o levando a perseguir um objeto, como por exemplo uma bola de futebol. Enquanto chegamos à conclusão que um determinado individuo, é ótimo em se decidir de seus movimentos nas jogadas, na verdade não é. O motivo é que a consciência não se ocupa com os mecanismos que orientam o comportamento. Imagine ter que ter consciência de todos os movimentos, músculos, sentidos e tudo mais envolvido, seria impraticável.

Mas então, quantos dos nossos atos que achamos deter consciência de decidir, são verdadeiramente automáticos e predeterminados? Já ocorreram experiências a respeito disso, mostrando em ressonâncias modernas, que parece haver uma ligação entre o que ocorre em nossa mente e o que se passa em nosso corpo, contrariando a ideia de dualidade, ou seja, de acharmos que o corpo e mente possuem entre eles, algum nível de independência.

Num destes experimentos, voluntários enquanto submetidos a uma ressonância, visualizavam 3 letras aleatórias, que piscavam seguidas uma da outra numa tela. Podiam reagir às letras, apertando um de dois botões, um para a mão direita e outro para esquerda, para indicar a lacuna. Os voluntários viam a sequência de letras, e em dado instante, podiam decidir livremente apertar o botão esquerdo ou direito, depois diziam a letra exibida na tela quando tomaram a decisão. Tudo isso, foi registrado por um computador para depois analisar o momento exato de cada decisão. Os dados por fim mostraram que reiteradamente, todos os voluntários, decidiam apertar, fosse o botão direito ou esquerdo, cerca de 1 segundo antes de agir.

teste

Porém as análises de várias regiões cerebrais, mostram que apesar de parecer que os voluntários, estarem tomando uma decisão aleatória, na verdade parecia que 10 segundos antes da decisão de apertar qualquer botão, o subconsciente já havia feito sua escolha. Podendo então concluir, que apesar de acharmos que tomamos as decisões num determinado instante, nosso cérebro já havia se decidido e começado a se preparar nesses 10 segundos antes, isso prova que nossas decisões são ilusões de escolha? Podendo tomar decisões somente com base no que o subconsciente já determinou? Claro que tal teste mostra somente que ações momentâneas, uma decisão mais elaborada como decidir entre qual novo celular comprar, não se encaixa inteiramente neste padrão.

Após várias décadas de pesquisa, o atual entendimento do “eu interior”, é que ele é apenas um produto de impulsos elétricos percorrendo o tecido neural. Partindo deste princípio, biologicamente falando, somos pré-programados. Por que? Pegue a orientação sexual, queira ou não, ela está fortemente ligada ao organismo, durante o desenvolvimento intrauterino de um bebê, os diferentes níveis de hormônios podem ditar a futura orientação daquela pessoa, comprovando assim que a orientação sexual. seja qual ela for, é natural e não uma escolha 100% racional, mesmo que levemos em conta o alto nível de consciência e capacidade de discernimento do ser humano, mas esta discussão de orientação sexual, deixo para abordar em outro momento. Outros exemplos da questão biológica, podem ser a nossa disposição a procriar, desejo sexual, reações de fuga, medo, raiva ou qualquer outra das muitas ações que podemos enquadrar. São fatores que estão intimamente ligados a nós, seres vivos.

Para juntar a nossa conta, perceba que nossas decisões, nossas escolhas, têm um efeito cascata em quem nos cerca. Que podem até mesmo nos castigar se não observamos certas normas, estas por sua vez delimitadas para a boa convivência e aceitação de qualquer indivíduo na sociedade. Não posso isso, posso aquilo, devo fazer aquele outro. Podemos não ter muitas escolhas, mas somos responsáveis por nossos atos. Resumindo, somos totalmente livres, entretanto, dentro de alguns limites, alguns totalmente aceitáveis e indispensáveis, não matar e não estuprar. Outros questionáveis, não fumar, não beber e compre.

E se chegarmos digamos, além das interações pessoais diretas, num próximo nível, o nível do comportamento social em massa? Há novos estudos, já conseguindo determinar através de diversas equações, que as sociedades nas quais vivemos seguem regras tão previsíveis quanto as leis newtonianas. Analogicamente, de perto o comportamento dos pássaros parece caótico. Mas, de longe, vemos padrões bem determinados. Isso quer dizer que como um todo, a humanidade já possui um destino?

Durante a história humana, um império após o outro descobriu que mudar o rumo das questões mundiais não é fácil. Os gregos antigos diziam que talvez seja possível alterarmos pequenas coisas em nossa vida, mas todos estamos à mercê de um destino inevitável. Quando se tem livre arbítrio, não é questão disso ou daquilo. É um livre arbítrio limitado, sendo uma questão de algumas opções. Você não pode se decidir livremente, sem qualquer impedimento, que a gravidade não te influenciará, mas tem a opção de se utilizar de um avião, foguete, pular usando as próprias pernas e mesmo assim a gravidade ainda estará lá, te puxando. Noutro extremo, os movimentos das galáxias, estrelas e planetas obedecem a leis rígidas de causa e efeito, sem espaço para o nosso livre arbítrio.

Existem diversas formas de abordamos e filosofarmos a respeito do livre arbítrio. E embora saibamos algumas coisas sobre a natureza da consciência humana, sobre a natureza da realidade e da física, considerando o que desconhecemos, é necessário se ter muita cautela em descartar algo tão fundamental como nossas escolhas. Seja lá termos um destino já determinado ou não pelo universo e tudo que nos cerca, algo que talvez jamais saberemos se é verdade ou não, devemos com toda a certeza, entender e perceber que cada novo dia que vivemos, é uma nova chance de uma nova descoberta, de aprendizado e vivencia, tendo também capacidade de decisões. Quer seja o livre arbítrio real ou não, limitado ou não, ainda sim fazer o melhor para nós e todos que nos cercam, é o melhor caminho que podemos trilhar.

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